A religião no Brasil é um assunto realmente delicado a ser tratado, visto a predominância católica ativa e com grande poder de oratória. O panorama apresenta diversas religiões espalhadas por todo território nacional, que vão desde religiões indígenas até religiões japonesas como o Seich-No-Iê. No caso “indígena”, a população sofre por pouco conhecimento, não só os brasileiros, mas me refiro aqui a nível mundial, pois, religiões como o cristianismo, judaísmo, islamismo, budismo e hinduísmo passaram por um processo de globalização, enquanto, muitas religiões indígenas, até mesmo por serem praticadas por sociedades ágrafas, não participaram de tal processo e apresentam poucos adeptos, quase exclusividade dos índios. O fato é que enquanto apenas uma religião for abordada na maioria das escolas e casas, o leque de informações, soluções, proposições e pensamentos, permanecerá fechado.
O medo, causador definitivo do fim ou do deslocamento para segundo plano das dúvidas, determina o nível de discernimento das relações sociais apresentadas no país. Há a contradição, pois o curioso, que incita dúvida, medo, realmente nos atrai em busca de uma verdade, porém, tratando do temor aos Deuses, tudo se encerra e a mente acostumada com dádivas, milagres e destinos se bloqueia, não se permitindo extravazar os limites. Este medo, decorrente da fé, foi formulado há milhares de anos e recebe ênfase maior quando, conceituados religiosos, descrevem o “inferno” com uma gama de detalhes incrivelmente maior que quando estão descrevendo o “céu”. Dostoiévsky bem diz no célebre livro “Irmãos Karamazov”: “Se Deus não existe, o homem criou o diabo à sua perfeita imagem e semelhança”. Pensemos no seguinte caso: ” Uma criança de nove anos foi torturada por um maníaco que lhe maltratava das mais terríveis maneiras. Queimava-lhe o corpo com bitucas de cigarro acesas, espetava-lhe o corpo todo com um garfo, fazia-lhe comer suas próprias fezes e beber sua urina. Abusava sexualmente da menina até que um dia, cansou-se e matou-a, deixando que o corpo apodrecesse em um banheiro construído no térreo de sua casa. Após algumas semanas de potrefação os vizinhos começaram a sentir o mau-cheiro e sugeriram à polícial local que algo não estava correto naquela casa. Os políciais foram até a casa e se depararam com talvez o mais forte cenário de sua vida. Não foi necessária muita investigação para encontrar o culpado, e, quando já em posse da justiça, este foi levado à uma sala particular à pedido da mãe, que gostaria de conversar com ele. Resumindo a história, a mãe embora imensamente entristecida, pois em algumas sociedades o valor que as mães dão aos filhos é indescritível, ela disse que perdoôu o assassino, em nome de Deus. Mesmo até depois do assassino dizer que enquanto ele jantava, ouvia a menina no banheiro rezando para seu Deuzinho – Meu Deuzinho, quero minha mamãe, quero meu papaizinho. Por que eu estou aqui? Por que esse homem é tão mau meu deuzinho?” A mãe pode o ter perdoado, mas pergunto: Será que a criança, aquela menina que sofreu sem motivos tantas atrocidades, tantos absurdos, o perdoaria? Como ela se sentiria sabendo que sua mãe perdoôu aquele que lhe tanto maltratara, lhe tirara a inocência, lhe tirara a vida? O homem foi decapitado. Só isso basta? Ao menos para a mãe bastou.
Acima citei algumas sociedades em que o amor materno é indiscritível, e muitos consideram-no sendo “instinto”. Eis um grande erro, pois os instintos são exclusivos dos seres irraconais. Apenas para comprovar: Em uma tribo indígena brasileira, as mulheres podem ter até três filhos homens, caso a mulher venha a gerar uma menina no lugar do terceiro filho, essa mãe joga a filha de um penhasco, e se existe prova de que isso não cause extrema revolta, observemos a organização presente nas muitas das sociedades indígenas. Outro “instinto” tão falado – o instinto de sobrevivência. Se fosse realmente real, não existiriam os kamikazes, homens-bomba e suicidas. Experimente colocar um bebê em uma rua com intenso tráfego de veículos. Certamente ele não terá esse “instinto de sobrevivência” e será atropelado. Os “instintos”, por assim dizer, são criados de acordo com a cultura passada.
Disse tudo isso para finalmente chegar ao ponto que me interessa – o aborto. Como podemos basear-nos sobre um assunto tão importante em explicações religiosas? No caso brasileiro, o catolicismo se mostra indiscutivelmente contra o aborto, e argumenta com aspectos religiosos. Mas, claro, sempre há uma contradição, no caso de estupro ou má formação o é permitido. E se pensarmos que estamos pertos de uma superpoulação mundial, ou se relembrarmos a antiga história onde o homem vivia em intenso contato com a natureza, e dependia única e exclusivamente de si próprio para sobreviver. Apenas os “fortes” – no amplo sentido da palavra, sobreviviam. A preocupação demasiada em preservar a vida alheia, herança do catolicismo, deveria ser vista por outros prismas, e não somente pela comunidade religiosa, tão atuante hoje no Brasil. Eutanásia, aborto, deveriam ser tratados com mais inteligência, e quando digo inteligência, não me refiro simplesmente à linguagem científica, pois esta é baseada apenas em probabilidades, os números são probabilidades.
As religiões surgiram para responder dúvidas milenares como: ” O que eu faço neste mundo?”, “Qual a minha missão neste plano?”, “Existe vida após a morte?”, e, as sociedades primitivas como as indígenas, já buscavam estas respostas. Precisamos estudar o passado para entender o presente e imaginarmos o futuro. Um novo Deus nos espera.